Depois de ler Lisboa, Chão Sagrado fiquei com vontade de ler outras coisas da Ana Bárbara Pedrosa, o que nos fez incluí-la no desafio de autores para 2025. A sorte (que é como quem diz uma roleta da internet) ditou que em fevereiro leríamos Palavra do Senhor, para o qual estava particularmente curiosa, sem saber o que esperar.
Em Palavra do Senhor, a Ana Bárbara assume Deus como narrador para que este possa, por fim, esclarecer os mal entendidos e as histórias que foram incompreendidas pelos humanos, entre o Antiquíssimo e o Novíssimo Testamento. Promete, não é?
A minha loucura por amor só tinha estragado o mundo, mas eu estava demasiado ocupado a expiar a minha dor: a minha criança em fuga, milhares de crianças mortas, um déspota obcecado com a faca, a mulher que eu amava desterrada, José no meio do colapso.
Arriscar uma reinterpretação de Deus num país tão dado à fé é um desafio arriscado — e adorei que a Ana Bárbara tenha arriscado. Portugal ainda vive muito da visão cristã e, para mim, que cresci num meio católico, que fiz todas aquelas coisas do batismo ao crisma, é particularmente interessante ver reinterpretações desta fé coletiva na qual não acredito propriamente.
Gostei do risco corrido, da humanização de Deus (que, diga-se de passagem, é muito tóxico) e da ideia de tentar explicar de outra forma acontecimentos bíblicos. Maaaas… sinto que faltou qualquer coisa, não sei bem se tirava a toxicidade de Deus, principalmente na obsessão possessiva por Maria, ou se acrescentava algo mais, que permitisse compreender melhor o propósito do livro. Assim parece que faltou concretizar algo.
Sim, Deus criou mesmo a Humanidade à sua imagem, fazendo dos humanos mesquinhos, problemáticos, demasiado focados em si próprios. Mas e mais? Só era obcecado por Maria, num nível em que realmente só com ordem de restrição é que funciona?
A escrita da Ana Bárbara é muito boa, mas neste livro senti mesmo que faltou qualquer coisa.
Título original: Palavra do Senhor
Autora: Ana Bárbara Pedrosa
Ano: 2021
Lido entre 4 e 9 de fevereiro de 2025
Gatilhos: religião