Conta-me Histórias 1×13: O Pior Natal de Sempre

Este era um Natal especialmente aguardado por Alice. Pela primeira vez, a véspera e o dia de Natal iam ser passados apenas com Ricardo, o namorado. Aquilo que era, para ambos, o quebrar da tradição de celebrar a época festiva em família acabara por se tornar na oportunidade de ambos criarem novas tradições.

Alice vinha há várias semanas a planear o primeiro Natal de ambos. Queria que fosse perfeito, que ali começassem as tradições que passariam para a família que um dia teriam. A expectativa era elevada e o entusiasmo não lhe permitia prestar atenção a muito mais do que decorações e receitas.

Talvez por isso, Alice não percebeu o que ia acontecendo com Ricardo. Enquanto Alice planeava a playlist de Natal, Ricardo passava horas agarrado ao telemóvel. Quando Alice chegava tarde a casa por ter estado a fazer compras para o Natal, Ricardo não estava lá para a receber porque todos os dias trabalhava até mais tarde. Quando Alice vasculhou a casa à procura do presente que Ricardo lhe comprara e não o encontrou achou que ele o tinha escondido noutro lugar porque sabia que ela ia procurar.

Quando, no dia 23 de Dezembro, Ricardo chegou cedo a casa e encontrou Alice a preparar a sobremesa do jantar do dia seguinte, Alice não sabia que o seu Natal perfeito estava prestes a ser arruinado. Semanas de preparação, de sonho, de planeamento. Semanas que foram destruídas com apenas três palavras:

— Precisamos de falar.

Alguma vez, na história da humanidade, estas três palavras foram seguidas de algo bom? Precisamos de falar… ganhei a lotaria! Precisamos de falar… queres casar comigo? Não lhe parecia. Mesmo que tentasse enganar-se, Alice via nos olhos de Ricardo que nada de bom vinha dali.

— O que foi? — perguntou.

— Eu sei que estás entusiasmada com este Natal por isso quero falar contigo hoje, para não o arruinar por completo.

— Está bem…

— Eu quero acabar.

Alice olhou-o, sem qualquer expressão.

— Queres acabar? — perguntou.

— Sim, quero acabar o namoro.

Alice não respondeu de imediato e Ricardo ficou em silêncio a aguardar uma qualquer reacção da futura ex-namorada. Alice pensou por uns segundos.

— Então foi por isso que não encontrei a prenda de Natal. — murmurou. — Foi por isso que não me compraste prenda de Natal! — acusou.

Ricardo foi apanhado desprevenido. Estava a terminar uma relação e Alice preocupava-se com uma prenda?

— Não estou a perceber…

— Ao menos tinhas comprado uma porcaria de uma prenda! Sabes… só pelos nove anos que passámos juntos! — continuou Alice. — Mas não. Passas nove anos com uma pessoa e depois terminas tudo na véspera de Natal e nem uma prenda te dignas a comprar!

Ricardo tentou falar, mas Alice impediu-o.

— Isto significa que já sabias há muito tempo que ias terminar e não tiveste coragem de o fazer! És uma vergonha, és um fraco!

— Alice…

— Sai!

— Alice, vá lá, vamos conversar…

— SAI!

Ricardo conhecia aquela expressão. Sabia que nada do que dissesse ou fizesse importaria.

Foi assim que Alice deu por si, na véspera de Natal, com sobremesas para comer, um iPad que deveria ter sido para Ricardo e uma casa vazia.

Era suposto estar a trabalhar a partir de casa, mas pouco trabalho conseguia fazer. Para onde quer que olhasse via algo de Ricardo. Por isso, enquanto devia estar a trabalhar, pegou num saco do lixo e encheu-o de tudo o que era de Ricardo enquanto ouvia uma playlist para corações partidos que encontrara no Spotify e ia comendo a grande travessa de farófias que tinha feito para sobremesa da Consoada.

Depois, à noite, quando milhares de família estavam à mesa, a abrir presentes ou a fazer o que quer que fosse que as famílias faziam na noite de Consoada, Alice estava a ver “O Diário de Bridget Jones”, a julgar aquela cena em que a Bridget Jones vai para o meio da rua — com neve — praticamente despida e a chorar o facto de a vida não ser como nos filmes. Onde estava o Hugh Grant? Ah, sim! Estava no “Notting Hill”, que decidiu ver de seguida.

Estava já próxima de um estado de hiperglicemia quando a campainha tocou. Levantou-se entre resmungos. Alguém precisava de mandar arranjar a porta do prédio porque isto de a porta não fechar bem já era chato o suficiente e agora ainda tinha pessoas a tocar às campainhas na véspera do dia de Natal. Ninguém merecia.

No entanto, quando espreitou pelo olho mágico, não queria acreditar no que via. Ainda ponderou ignorar, mas ele tinha a chave de casa. Abriu a porta.

— O que é que estás aqui a fazer? — perguntou.

— Eu comprei-te, sim, uma prenda de Natal. E foi por isso que quis terminar. Talvez não faça sentido, ao dizer assim, mas é a verdade. — disse Ricardo, retirando uma pequena caixa do bolso. — Fiz tudo certo, como devia ser. Roubei-te um anel para ter a medida certa, vasculhei o teu histórico para perceber se havia algum tipo de anel de que gostavas mais e entrei em pânico.

Sem resposta de Alice, Ricardo continuou.

— Este anel fez-me pensar no nosso passado e no nosso futuro. E foi demasiado assustador imaginar-me para sempre, durante décadas, com a mesma pessoa. E, em pânico, terminei tudo. E depois foi demasiado assustador imaginar-me para sempre, durante décadas, sem a mesma pessoa, sem ti.

Alice continuava sem reagir.

— Portanto, para o que quer que valha, este era o teu presente de Natal. — disse Ricardo, ao abrir a pequenina caixa que continha um anel de noivado. — Desculpa ser fraco.

Alice fitou o anel reluzente.

— Já te tinha visto fazer coisas muito estranhas e até estúpidas por causa do medo, mas juro que esta ganhou a todas essas vezes. — comentou.

Ricardo sorriu.

— Consegues perdoar esta estupidez?

— Não sei, Ricardo, não sei. Mas neste momento tenho demasiada comida no frigorífico e não suporto a ideia de não passar o resto da noite a fazer comentários sarcásticos sobre o facto de teres acabado comigo quando querias fazer o contrário.

— Eu ainda quero casar contigo, Alice. Estou preparado para te provar isso.

E assim, naquele que era o pior Natal de sempre, Alice deixou Ricardo entrar na sua casa para o impedir de sair da sua vida. Não sabia como ou quando iria acontecer, mas sabia que aquela história não terminava ali. Nunca podia terminar ali.

Depois, contaria para sempre como, depois de adormecerem no sofá, Ricardo se levantara cedo na manhã de Natal para preparar o pequeno-almoço preferido de Alice. E depois, com ela de pijama, sem maquilhagem e com olheiras do tamanho de um comboio de mercadorias, ajoelhou-se no meio da sala e pediu-lhe para lhe tirar os medos e ficar com ele para sempre.

E ela disse a única coisa que queria dizer. Que teria dito a qualquer momento dos últimos dez anos, que teria dito no minuto em que o conheceu, em todos os minutos em que o conhecera. Sim.

Todos os contos do projecto Conta-me Histórias seguem o Antigo Acordo Ortográfico. Descobre mais sobre o projecto aqui.

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