Diário de Escrita

#4 – De Génio e de Louco…

02/02/2018
considerações sobre escrever ficção

Se uma pessoa te disser que imagina coisas, tenho a certeza de que pensarás que essa pessoa está um bocadinho maluca. Afinal de contas, qual será o nível de sanidade de alguém que imagina histórias na sua cabeça, não é? Em parte, eu concordo: como é que uma pessoa se pode dizer totalmente sã se anda por aí a imaginar histórias e a criar diálogos entre pessoas que não existem? Algo não está totalmente bem. A não ser, claro, que a pessoa seja um escritor (ou alguém que crie ficção) e, se for esse o caso, aí está tudo bem. Ou será que está?

Já te estou a confundir um bocadinho, não estou? Já estás a pensar que também não deve estar tudo bem comigo, não é? Bem, eu escrevo ficção, por isso tira as tuas conclusões!

Costumo dizer muitas vezes que quem escreve ficção não pode ser totalmente bom da cabeça, exactamente porque andar para aí a imaginar personagens e histórias não é o melhor sinal de sanidade. Como é óbvio, digo isto a brincar, ok? Achei melhor dizer isto, não vá alguém levar à letra tudo o que eu digo. No entanto, é verdade que escrever ficção se revela um desafio que nos pode levar à loucura. Se estás a pensar fazê-lo ou se estás a começar, então deixem-me dizer-te algo que nem toda a gente que escreve será capaz de te dizer: escrever ficção é de loucos! Porquê? Vamos por partes.

5 (das muitas) considerações sobre escrever ficção

01 | Temos de entrar completamente na cabeça das personagens que criamos. Temos de saber exactamente o que pensam, o que querem, o que as move, o que as magoa, o que as deixa feliz, etc. Tudo o que faz daquela personagem ser a pessoa que é nós temos de saber, nós temos de criar. No fundo, temos de conhecer cada personagem melhor do que conhecemos a nós próprios. É a melhor forma de criar personagens reais.

02 | Aquilo que escrevemos vai mexer connosco e com as nossas emoções e só assim vais conseguir realmente entregar-te à escrita. E isto custa muito. Temos de nos envolver com a história e estar disponíveis para sentir o que vier daí. Há cenas que serão fáceis de escrever e há outras que vão mexer connosco, deixar-nos cansados, fazer-nos chorar. Tenho escrito algumas cenas que mexeram comigo de tal forma que quando terminei uma das cenas decidi não escrever durante dois dias, para recuperar. Nem sempre vai ser fácil, principalmente se estivermos a escrever com narrador na 1.ª pessoa, onde temos de escrever o que a personagem sente como se nós o estivéssemos a sentir.

03 | A história vai entrar de tal forma na nossa vida que vamos querer falar sobre ela a toda a hora, vamos pensar nela a toda hora e até vamos sonhar com ela. É como quando estás apaixonado e ainda estás na fase da lua de mel em que só vês a outra pessoa à frente, até a respiras! Se acordares a meio da noite a pensar «porra, vou mudar o capítulo três!» não te apoquentes! É só o teu cérebro que não pára de pensar no raio da história.

04 | Nem tudo é ficção. A verdade é que vai haver sempre uma pessoa da nossa vida real que vai servir de inspiração para uma ou mais personagens. E talvez um episódio da nossa vida ou da vida de alguém que conhecemos seja uma boa premissa. No entanto, acho que à medida que escrevemos, moldamos as personagens e as histórias, e elas tornam-se mais ficcionais do que reais. No fim talvez já nem se notem os pontos de contacto que havia com a realidade.

05 | Temos de nos apaixonar pelas personagens e pela história. Mesmo pelos vilões. Claro que não é apaixonares-te ao nível Ruby Sparks, está bem? Não vivas na ficção em vez de viveres na vida real. No entanto, temos de gostar daquilo que criamos e dedicar-lhe o tempo e o amor necessários para termos uma história da qual nos vamos orgulhar, uma história com pés e cabeça.

Escrever e, principalmente, escrever ficção é algo mais complexo do que pode parecer. No entanto, quando nos permitimos entrar naquele novo mundo (sem perdermos a sanidade) torna-se simples. E todo o suor que possa vir do processo vai valer a pena.

Gostaste destas considerações?

  • Reply
    Joaninha
    04/02/2018 at 17:54

    Vou contar-te um segredo… eu, no auge dos meus 12 anos, escrevi uma história bem grandinha de ficção, onde deixava a minha caneta deslizar e pairar sobre a mente das personagens que criava. E, admito, ADORAVA escrever. Porém, rapidamente, percebi que escrever sobre coisas não inteiramente reais não era para mim, nunca teria jeito ou *paciência* para isso. Assim, decidi deixar essa tarefa para quem, como tu, tem o talento.
    (Queria tanto ler o Seja o que for o Amor)
    Achei estes 5 pontos mesmo interessantes e reais. E, para a Q&A, queria deixar-te duas perguntinhas mais pessoais e sobre a tua escrita:
    – Qual foi o momento chave da tua vida que te fez perceber gostares desta vertente da escrita?
    – Que personagem das que já inventaste, publicada ou não, foi mais inspirada numa pessoa real?
    Agora, duas perguntinhas sobre o assunto em geral:
    – Sentes que há algum género literário que devia ser repensado?
    – Que tipo de blogues não têm "futuro"?

  • Reply
    Carolayne T. R.
    09/02/2018 at 16:03

    Depois de ler esta publicação, até fiquei mais calma, eheh! (Estou a falar muito a sério! ?)

    LYNE, IMPERIUM

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