Filmes

tick, tick… BOOM!

19/01/2022
tick, tick...boom!

Nos últimos anos, deixei, quase na totalidade, de escrever sobre filmes. É uma área que não domino e da qual acabo por abdicar várias vezes e, por isso, com o tempo decidi também abdicar da escrita sobre ela. No entanto, de vez em quando vejo coisas (filmes e não só) que sinto que abanam o meu mundo e me dão tanto em que pensar. Foi o que aconteceu com tick, tick… BOOM!

 

O texto que se segue pode conter spoilers sobre o filme tick, tick… BOOM!

Trigger warnings:
fazer 30 anos; linguagem e conteúdo explícitos.

 

tick, tick... BOOM!: uma recomendação acertada da Netflix

Normalmente, vejo as recomendações que a Netflix me envia com algum receio, porque nem sempre são adequadas aos meus gostos. No entanto, quando a newsletter veio com um filme em destaque e uma sinopse interessante eu tive de adicionar à lista para ver. Foi assim que tick, tick… BOOM! entrou na minha vida.

Prestes a fazer 30 anos, um promissor compositor de teatro lida com o amor, a amizade e a pressão para criar uma obra-prima antes que seja demasiado tarde.

Eu não sabia o que quer que fosse sobre o Johnatan Larson, embora depois tenha percebido que conhecia música de Rent!, por isso fui para o filme sem expectativas e sem uma ideia daquilo que me esperava. Depois do filme (okay, ainda durante o filme) fiz uma pesquisa um bocadinho extensa para saber mais sobre a história do compositor e dos musicais que compôs, algo que achei muito útil para compreender ainda melhor quanto do musical é biográfico… ou não.

tick, tick… BOOM! começa por ser um monólogo rock que o próprio Larson interpretou em 1992 e, no filme, essas interpretações do monólogo surgem também, claro. O filme começa em 1990, com Jonathan Larson a trabalhar num american diner, o Moondance Diner, enquanto se prepara para apresentar um workshop para o musical em que trabalha há anos, Superbia.

Está prestes a fazer 30 anos e sente a pressão de fazer algo relevante e importante antes de lá chegar. O Superbia é esse projeto, ou, pelo menos, ele pensa que é. As coisas complicam-se quando a namorada, Susan, lhe conta que tem uma oferta de emprego longe de Nova Iorque. Ela quer que ele vá com ela, ele acredita que precisa de estar em Nova Iorque. Ao mesmo tempo, o melhor amigo, Michael, acha que ele devia tentar uma profissão estável e até lhe oferece emprego da empresa de publicidade em que trabalha.

Como Jonathan não está claramente interessado em sair de Nova Iorque e quer mesmo tentar tudo com Superbia, acaba por se envolver numa discussão com Susan, que termina a relação porque sente que ele é demasiado obcecado com a carreira. Jonathan acaba por aceitar o emprego no focus group da empresa de Michael, porque precisa de dinheiro para a peça que está a compor, mas acaba por se sabotar deliberadamente.

A pressão de chegar aos 30 e uma lição muito importante sobre escrita

Adorei as músicas do filme e passei vários dias a ouvir a banda sonora no Spotify. Podia até tentar explicar como gostei de ver o Andrew Garfield e a Vanessa Hudgens. No entanto, o que o tick, tick… BOOM! trouxe à minha vida foi uma lição necessária sobre a pressão de chegar aos 30 e, sobretudo, sobre a escrita.

Quando ele finalmente apresenta o workshop de Superbia o que acontece é um êxito. Toda a gente adora, toda a gente lhe dá os parabéns, toda a gente lhe diz que ele é incrível. Só há um problema: ninguém quer financiar o projeto. Para ele, isso é sinal de falhanço. Não importa que todos tenham gostado do que viram: se ninguém quer financiar o projeto é porque, afinal, ele falhou.

Honestamente, compreendo. Compreendo demasiado bem. Nunca tentei vender um musical para a Broadway, mas tentei publicar livros e sinto o mesmo. Mas, depois, o Jonathan fala com a agente e ela dá-lhe o melhor conselho que alguém poderia dar — ao Jonathan e a qualquer escritor.

you start writing the next one. and after you finish that one, you start on the next. and on and on, and that’s what it is to be a writer, honey. you just keep trowing them against the wall. and hoping against hope that eventually something sticks.

Dentro de menos de três anos também eu estarei nos 30 e também penso muitas vezes que estou a ouvir, ao longe, aquele tick, tick, tick, tick irritante a dizer-me que o tempo para fazer algo incrível está a terminar. O Paul McCartney e o John Lennon já eram os maiores de sempre e ainda não tinham 30 anos.

Felizmente, o monólogo termina de uma forma positiva, com alguma esperança no futuro. O que torna ainda mais triste saber que o Johnatan Larson morreu no dia da estreia de Rent e nunca soube o êxito alcançado pelas suas composições. E, daí, vem a maior lição delas todas: não é só continuar a escrever; é continuar a escrever sabendo que podemos nunca ver os frutos do nosso trabalho — mas pelo menos demos o nosso melhor para criar frutos absurdamente bons.