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HASHTAG VERGONHA HETERO

hashtag vergonha hetero

Há algo de inacreditável nas coisas que, por vezes, vemos por aí. Inacreditável é a palavra que me vem à cabeça porque ainda não consigo acreditar que alguém defenda que deve haver algo chamado orgulho hetero. Inicialmente pensei que era brincadeira parva. Afinal, não vejo motivo para nós, heterossexuais, precisarmos de mostrar orgulho por nos sentirmos atraídos exclusivamente por pessoas do género oposto. Depois percebi que há mesmo umas mentes iluminadas que realmente acreditam que, se há um mês de orgulho LGBTQ+, devia haver algo de orgulho heterossexual. Parem o mundo, por favor! Quero sair!

Ainda recentemente comentava com um amigo como toda esta história do orgulho hetero é a coisa que mais me faz sentir vergonha de ser heterossexual. É que, vejamos, orgulho de quê? Orgulho pelo quê? Orgulho porque nunca tive de recear contar a alguém a minha orientação sexual? Orgulho porque se eu disser que tenho namorado ninguém vai estranhar? (se calhar estranham, mas isso é outra história) Orgulho porque ninguém me julga com base na minha orientação sexual? Porque não sou gozada por gostar de rapazes? Orgulho pelo quê? Podem dizer-me, porque eu não sei mesmo a resposta.

Mas importa mesmo a orientação sexual?

Nos últimos seis ou sete anos, três dos meus amigos quiseram ter um momento de coming out (expressão que odeio) comigo. Todos foram diferentes, mas todos me deixaram com sensações semelhantes. Primeiro, todos pareciam ter receio de me dizer que gostavam de rapazes, o que eu achei quase engraçado porque, na verdade, eu já sabia isso sobre todos eles. Depois, não soube, em nenhuma das vezes, como era suposto reagir além de dizer que já sabia. Porque já sabia, mas não precisava de o mencionar nem sentia que mudava alguma coisa.

Gosto deles, não importa se são hetero, homo ou mesmo assexuais. Importa-me se são pessoas decentes, interessantes, preocupadas. No entanto, sei o quanto aquele momento foi importante para eles. Não imagino a ansiedade que terão sentido ao quererem contar-me (ou ao quererem contar a outras pessoas), sem saberem que reacção receberiam.

Nunca ninguém me fez sentir que era uma vergonha ser heterossexual. Já me fizeram sentir vergonha de muita coisa, mas disto não. Mas já fizeram os meus amigos sentir que era uma vergonha serem homossexuais ou bissexuais. Fizeram com que eles sentissem isso porque é pecado, mesmo que o único pecado deles seja amar alguém. Fizeram sentir isso sempre que assumiram que, por serem rapazes tinham namorada, que por serem raparigas tinham namorado. Quando ouviram histórias de pais que expulsaram os filhos de casa por causa da orientação sexual. Quando os colocaram de parte ou mesmo quando gozaram com eles e lhes chamaram nomes por serem quem são. Querem que continue?

Precisamos de mudar a nossa formatação

Eu também me sinto muitas vezes formatada para assumir ao princípio que alguém é heterossexual. Odeio-me quando o faço. Se não assumo que toda a gente tem um pai e uma mãe por que raio hei-de assumir que alguém é heterossexual? Tenho tentado contrariar isso e assumir que são apenas pessoas. É por isso que, quando me vêm com merdas de orgulho hetero, eu juro que tenho vontade de os agredir. A sério.

É bem possível que já possa ter julgado alguém por ser esquisito, diferente, o que for, e admito-o, mas é certo que me vão ver defender, com tudo o que puder, a igualdade de direitos e, acima de tudo, o LGBTQ+ pride. Não só pelos meus amigos, mas por todos os amigos de alguém que, um dia, sentiram que eram menos do que alguém, que mereciam menos do que alguém, que foram olhados de lado por alguém, que sentiram que não podiam ser, que não podiam amar, que não podiam viver. Vocês podem. Vocês importam. Vocês são incríveis.

6 Comentários

  • Reply
    Andreia Morais
    17/06/2019 at 22:10

    Há pessoas que precisam de colar esta mensagem no espelho, para a ler todos os dias, ou na testa, para ver se param de ser tão quadradas e ignorantes!!!

  • Reply
    Mary
    19/06/2019 at 13:03

    Tão isto, Sofia! O que importa é o amor, sempre o amor.

  • Reply
    Beatriz Sousa
    19/06/2019 at 18:25

    Infelizmente há pessoas que pensam nisso, mas deviam deixar de ser ignorantes e querer o orgulho hetero… wtf como se tivessem de passar por metade das coisas

  • Reply
    Cherry
    25/06/2019 at 19:17

    Spoiler alert: este post já está nos meus favoritos de Junho.
    Tenho uma unpopular opinion acerca do assunto: eu nem sequer sou a favor do orgulho gay. Reconheço as dificuldades pelas quais passaram e ainda passam, acho importante que continuem a falar no assunto ativamente, mas não me identifico com certas celebrações como as paradas de orgulho gay. Na minha opinião, isso só promove ainda mais a desigualdade e o preconceito que sofrem. As pessoas da comida LGBTQ também são pessoas, e os outros esquecem-se disso quando,basicamente e sem querer ofender ninguém, estão vestidos de palhaços.
    Se já tenho este opinião em relação ao orgulho gay, acho o orgulho hetero completamente estúpido e ignorante. Que tipo de dificuldades é nós passamos? Nenhumas. Além disso, e falando no geral destes dois movimentos, a orientação sexual é algo que não devia ser motivo de "orgulho", é aquilo e acabou, e as pessoas têm que aceitar.
    Beijinhos
    Blog: Life of Cherry

  • Reply
    Mariana Filipa
    04/07/2019 at 09:45

    As tua palavras não poderiam descrever melhor aquilo que penso! Nem sabia que estavam a querer fazer algo desse género, soube no blog Life of Cherry e fiquei estupefacta. São pessoas sem noção e consciência.

    Blog: https://ajudaoplanetaesalvaomundo.blogspot.com/
    Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCFSxFwBUO4vK64lhrW2reyw

  • Reply
    Carolayne T. Ramos
    16/10/2019 at 19:05

    “Gosto deles, não importa se são hetero, homo ou mesmo assexuais. Importa-me se são pessoas decentes, interessantes, preocupadas.” – preciso de acrescentar mais? Faz-me imensa confusão a necessidade que as pessoas têm de se interessar e intrometer na vida íntima de cada um! Como se a nossa sexualidade definisse as nossas ações, superficialmente! – tendo em conta a sociedade em que vivemos, é certo, e um tanto descabido, o poder que a nossa sexualidade tem perante as nossas ações -, mas isso não deveria importar. Antes de tudo o resto, somos seres humanos, com necessidades, sentimentos, pensamentos e valores!

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