Guest Post Música

Guest Post: Ser Músico

27/08/2020
guitarra preto e branco
Ser Músico
Rui Rodrigues
Músico

 

Este texto foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico. Foi escrito para este projecto e é reproduzido aqui com autorização do autor.

 

Esperador profissional

Músico de profissão. É o que sou. Transporto, monto e desmonto instrumentos, trabalho a comunicação e marketing dos meus projetos, agencio-me a mim próprio, trato de contabilidade, giro redes sociais, desloco-me de cidade em cidade para espetáculos, espero que chegue a hora do concerto.

Ah, e também toco e componho música nos tempos livres!

“Sou esperador profissional”, responderia um grande amigo e grande músico. “Pagam-me para esperar e ser guiado. Se dizem que é para eu chegar a x horas, eu chego. É para entrar na carrinha? Eu entro. É para comer? Eu como. É para esperar? Eu espero.”

“Agora é para tocar!” e ele aproveita a última das suas 16 horas de trabalho para partilhar o seu talento com o público. “Esta hora eu ofereço, todas as outras é que são trabalho!”

Por vezes gostava de ser como alguns amigos músicos amadores (que de amadores nada têm, só não dependem da sua arte para viver). Fazem música pela música, e não se preocupam nem têm de se preocupar com o lado logístico e comercial da arte (sim, o lado comercial existe e sem ele não conheceríamos nomes como os Beatles ou Miles Davis).

Esse é o verdadeiro trabalho de um músico/artista, principalmente, músico/artista independente. Mas não se julgue que um artista de editora não tem de se preocupar com o seu marketing. Tem, e por vezes tem de partilhar a sua visão com a visão das editoras que, essas sim, se focam exclusivamente num só objetivo – rentabilizar a música.

Não diabolizemos as editoras

Sem elas, álbuns como o homónimo dos Led Zeppelin, dos Rolling Stones ou Pablo Honey dos Radiohead, provavelmente não veriam a luz do dia e, consequentemente, os seus autores não fariam parte do imaginário musical da música popular ocidental. Quantas bandas percursoras não assumem estas últimas como referências? Como seria a nova música popular se os gigantes do pop/rock não tivessem sido comercializados?

Tudo o que precisa de público precisa de marketing. A música não é exceção, nem a política, nem sequer as instituições de solidariedade social.

Outra questão que me é frequentemente lançada é sobre a dificuldade de ser músico ou artista em Portugal.

É fácil? Não. É mais difícil que empreender em qualquer outra área? Diria que não, cada área tem as suas dificuldades.

É mais difícil em Portugal que noutros países? Penso que não. É verdade que o nosso mercado é pequeno. Numa perspectiva mundial, é um nicho, e ainda mais pequeno é o mercado da música alternativa (o meu). É um nicho dentro de outro nicho. Mas comparando com o país que mais exporta música no mundo, os EUA, penso que a proporcionalidade é a mesma. Há mais mercado mas a oferta e a competição também são maiores.

Resumindo...

Resumindo, gostava de passar os dias a tocar guitarra à beira-mar e sustentar-me dessa forma, mas o cenário musical profissional não é tão poético quanto se pensa. Nem o nacional, nem o internacional. Para um artista se destacar tem de ter muitas outras competências para além do talento. Tem de ser simultaneamente contabilista, produtor, agente e manager da sua própria carreira. E dentro da produção musical, é fundamental saber gravar com um mínimo de qualidade, produzir, misturar e masterizar.

Músico? Talvez não defina tudo aquilo que faço para que a minha música seja ouvida. Agora que penso nisso, vou adotar uma nova (e pomposa!) definição para a minha profissão: Empreendedor musical.

Sobre o autor
Rui Rodrigues
Músico... ou empreendedor musical

Há 15 anos no meio artístico musical, já esteve envolvido nos mais diversos estilos de música.

Como compositor e intérprete, integrou ou integra os seguintes projetos musicais: Casuar:, Dazkarieh e Uxukalhus.

Apenas como intérprete, integrou nos espetáculos ao vivo, grupos como: Donna Maria, Seiva, D.A.M.A, LOT, For Pete Sake, Voodoo Marmalade e Pás de Probléme. Colaborou também pontualmente com artistas como Omiri, PZ, Homem em Catarse, Matias Damásio, Mia Rose e Velha Gaiteira.

Entre obras originais e participações, gravou cerca de 15 discos, e fez mais de 600 concertos em Portugal, Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Áustria, Suiça, Rep. Checa, Lituânia, Finlândia e Malta.

Segue o projecto Casuar:
Spotify | Instagram | Facebook

Porquê o Rui e porquê falar sobre ser músico?

Vou ser-te sincera, quando apontei o tema música para um possível guest post não sabia se o tema ia sair daquela lista. Queria falar sobre algo cultural porque a cultura parece sempre o parente pobre da sociedade, mas não consigo imaginar-nos num mundo sem ela. Um mundo sem música? Sem literatura? Sem artes performativas? Não, obrigada. Além disso, este ano, por consequência da Covid-19, a cultura deixou de ser o parente pobre para ser o parente que fingimos não ter. Já nem é pobre, é paupérrimo, é sem-abrigo. Sim, a cultura precisava de estar aqui.

De repente, veio-me logo à cabeça a pessoa que queria a escrever este texto: o Rui. Conheço o Rui há quase cinco anos. Conheci-o num voo para o Funchal e, desde aí, não mais o perdi musicalmente de vista. Por aqui, já falei algumas vezes do projecto que ele mantém a solo, enquanto Casuar:, mas acho que nunca tinha dito o quanto admiro o Rui. Espero que este texto te dê uma nova banda sonora e te faça olhar para os músicos portugueses de uma forma diferente.

  • Reply
    Andreia Morais
    27/08/2020 at 19:30

    Há muitos passos deste processo que desconhecemos, porque não fazemos parte do meio e acabamos por ter uma ideia muito mais poética da música. E não deixa de o ser, só que para nós, ouvintes, é mais fácil chegar a esse estado, porque só a vemos quando está finalizada e a circular pelas rádios e plataformas digitais.
    Adorei este testemunho tão honesto, tão inspirador e tão impulsionar de reflexões *-*

    • Reply
      Sofia Costa Lima
      29/08/2020 at 14:53

      Já tive o privilégio de assistir a uma grande parte dos bastidores de um concerto e é inacreditável o quanto muitas pessoas ignoram todo o trabalho que existe antes (e depois) de vermos aqueles músicos em palco, daí também ser importante mostrá-lo mais vezes.

      Fico mesmo contente por teres gostado! 🙏

  • Reply
    Carolayne T. Ramos
    16/09/2020 at 11:56

    Como assim ainda não tinha lido este guest post! Desconhecia por completo o Rui, mas agora fiquei curiosa para explorar o seu trabalho! Gostei mesmo muito desta publicação e do quão objetivo ele foi com as suas palavras!

    LYNE, IMPERIUM BLOG // CONGRESSO BOTÂNICO – PODCAST

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