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Quem manda no meu batom?

16/01/2021

Há dois anos um rapaz meteu conversa comigo no Instagram. Normalmente, não dou muita confiança a estes engates de Instagram, mas naquele dia decidi conversar um bocadinho. Fiz-me difícil (as always), mas conversámos durante uns dias… até ao fatídico dia do batom vermelho.

Apesar de agora me verem muitas vezes sem maquilhagem (resultado de andarmos de máscara), eu sempre gostei de maquilhagem e num determinado período comecei a usar batons com cores fortes. Naquele dia fiz uma maquilhagem normal para mim: uma camada leve de base, máscara de olhos, lápis preto na linha de água e um batom vermelho. Estava a sentir-me poderosa. Tirei uma fotografia e coloquei no Instagram.

Não me admirei por, uns minutos depois, ter uma mensagem daquele rapaz. Admirei-me, isso sim, com a audácia do conteúdo da mensagem: não devias usar tanta maquilhagem. Hum, não devia o quê? Mas eu pedi-te autorização ou assim?

Acho que consegues prever que mandei o rapaz passear.

Fiquei realmente chateada por um rapaz achar que tinha o direito de determinar a quantidade de maquilhagem que eu punha na minha cara. No entanto, não me surpreende. Durante décadas (séculos, até), os homens acharam que tinham o poder de determinar aquilo que uma mulher vestia, usava, fazia.

O que aconteceu esta semana, com um candidato a Presidente da República a tentar atacar Marisa Matias, outra das candidatas, criticando o uso de batom vermelho não foi uma surpresa. É algo expectável vindo de quem acredita ser claramente superior aos outros: pelo género, pela raça e pela impunidade de que parece gozar. E claro que o simbolismo de ver dezenas de pessoas usar batom vermelho é bonito, mas e sem simbolismos? É preciso mais do que um fotografia com batom.

É preciso defender o batom e lutar por ele todos os dias. É preciso perceber que que lutar pelo batom é muito mais do que mostrá-lo no Instagram. É preciso levantar o rabo do sofá e ir votar, para quem quem ataca o batom fique fora das contas.

Decidi que o título deste texto seria Quem manda no meu batom? e não quero que seja uma pergunta retórica. Eu tenho a resposta: eu mando no meu batom. Eu escolho se uso, quanto uso, onde uso e a cor que uso. Eu mando no meu batom. Nunca há-de ser um homem a fazê-lo por mim. Usarei batom vermelho quantas vezes me apetecer. Eu mando no meu batom.

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