Conta-me Histórias 1×10: Teremos Sempre Qualquer Coisa

Passa da meia-noite. Deitados sobre o chão gelado, o frio da noite de final de Fevereiro passa despercebido. O álcool ocupa-lhes o estômago e eles limitam-se a olhar para as estrelas. Não são muitas, mas são suficientes para que ela pondere pedir um desejo. Depois, desiste da ideia. Aquilo que ela mais deseja está deitado a seu lado, a meros centímetros, e, ainda assim, é-lhe inacessível. Ela suspira e, com o suspiro, começa a falar.

— Sabes… tive saudades tuas. — naquele momento admite a si mesma que não está alcoolizada o suficiente para declarações de amor tão profundas. Devia ter estado calada.

— E não disseste antes porquê? — ele é sempre demasiado prático.

Ela não responde. Olha-o, sorri e senta-se. Contempla a escuridão e pensa novamente no facto de não sentir frio. Talvez esteja tão gelada que não consegue sequer sentir frio. Não é efeito do álcool. Duas ou três bebidas não têm grande efeito. Talvez tenham sido três ou quatro. Definitivamente foram pelo menos umas cinco.

Pouco depois, ele levanta-se e vai para um canto. Ele sim, tem álcool suficiente no sangue. Para declarações inapropriadas ou para vomitar. Para ela seria óptimo que fosse para a primeira opção, mas ele acaba por seguir a segunda. Vomita. Ela olha novamente as estrelas. Talvez devesse chamar alguém e ir embora. Mas não vai. Depois de tanto tempo, se ele precisa dela é ali que ela tem de ficar. Sempre foi assim.


A história de Carolina e Miguel começou há mais de sete anos. Miguel ainda se lembra de todos os pormenores de quando, naquela tarde de Setembro, Carolina entrou pela sua vida dentro. Estava ansioso naquele dia e não parava de olhar para o cinzeiro pousado em cima do balcão. Seria bem mais fácil ultrapassar os nervos se ainda fumasse. Tudo aquilo que tinha de fazer era pegar no maço e no isqueiro, esgueirar-se até à porta e fumar um cigarro. Depois, entrava novamente no edifício e aguentava os minutos de espera que lhe restavam.

Era a primeira vez que ia ensinar alguém. Tinha receio de falhar enquanto responsável por um workshop de Escrita Criativa. No entanto, gostava de desafios e, quando aquele lhe fora proposto, sabia que ia aceitá-lo e dar o máximo por aquele trabalho. Era um desafio e só se o cumprisse saberia se tinha ou não valido a pena.

O edifício onde iria fazer a estreia como professor era na Baixa de Lisboa e isso não podia agradar-lhe mais. Os edifícios com tanta história sempre o tinham cativado e eram eles que davam mais encanto àquela zona lisboeta. Por dentro estava todo remodelado, claro, mas não deixava de ser um privilégio poder trabalhar num sítio tão bonito. Ali, as horas passavam de forma diferente.

— Achas que ainda vai aparecer alguém para se inscrever? — perguntou Rita, a responsável por aquela ideia, que o acompanhava nos dias das inscrições para o workshop.

— Sinceramente, não sei. Mas temos de aqui estar até à hora definida para terminarem as inscrições. Mantém-se o mistério sobre se haverá ou não mais pessoas interessadas. — disse Miguel, ao mesmo tempo que a porta se abria.

— Isto parecia uma cena de filme… — comentou Rita, a rir com o sentido de oportunidade.

Carolina entrou a medo. Sabia que era o último dia para se inscrever e não gostava de deixar as coisas para a última hora, mas só descobrira o workshop há umas horas. Foi Rita quem a recebeu enquanto Miguel a observava.

— Em que posso ajudá-la? — perguntou, sorrindo à jovem.

— Venho inscrever-me no workshop de Escrita, se ainda houver vagas. — explicou Carolina, retribuindo o sorriso.

Miguel, preso ao sorriso, interrompeu a conversa.

— Eu trato disto, Rita. — de seguida dirigiu-se a Carolina. — Como é que te chamas?

— Carolina.

— Olá, Carolina! Eu sou o Miguel. Vou ser eu quem vai orientar o workshop. Vou dar-te um formulário para preencheres com os teus dados e já te explico como vai funcionar tudo, pode ser? — Sorriu-lhe e esticou-lhe uma folha e uma caneta.

— Obrigada! Estou muito ansiosa para aprender consigo!

Miguel parou para olhar para ela. Não devia ter mais do que dezoito ou dezanove anos. Era bonita, tinha o cabelo loiro, totalmente liso, e comprido, onde saltavam à vista umas quantas madeixas escuras, em tons de preto ou castanho escuro — não conseguia precisar. Havia algo nela que o impedia de desviar o olhar. Enquanto tentava avaliá-la mentalmente, deu conta de que ela cantarolava qualquer coisa, quase despreocupada com a presença dele. Em segundos, ela olhou para ele e, ao reparar que ele tinha ouvido a cantoria, calou-se e sorriu-lhe.


Era um daqueles momentos. Daqueles momentos em que, nos filmes, as personagens se encontram e os espectadores ficam a saber que ali vai haver romance, em que se percebe que estão destinados um ao outro e que vai haver amor. Mas nenhum dos dois percebeu essa parte. Pelo menos, não totalmente. Aquele sorriso prendeu Miguel. Não conseguiu evitar sorrir de volta. Um sorriso tão cativante só podia significar que aquela rapariga era diferente, especial.

— O que estavas a cantar? Não consegui perceber…

— Era em italiano, possivelmente não muito bom, por isso é normal que não tenha percebido. — ele riu. — Chama-se Volare.

— Estavas a cantar Domenico Modugno? — Miguel não conseguiu evitar um sorriso surpreendido e divertido.

— Bem… sim. — Carolina sentiu-se a corar. Aquela mania de cantar enquanto fazia outras coisas tinha de acabar.

— Acho curioso que conheças esse tipo de música. Ainda és tão nova!

Carolina fez um trejeito. Mais tarde, Miguel acabaria por descobrir que ela detestava quando a consideravam demasiado nova para algo. Carolina optou por mudar de assunto.

— Como é que funciona o workshop, mesmo?

— Isso é que é ir direita ao que interessa! — comentou Miguel, animado. — O workshop é de dezoito dias, cerca de quarenta e cinco horas, de segunda a sexta-feira. Vou tentar abordar um grande tema por semana, a começar com a pontuação e a sua importância. Segue-se o discurso e diálogos; descrição e personagens-tipo; e, por fim, na última semana, vamos escrever. A primeira e a última aula serão de escrita, com temas que eu direi na altura. Convém que tragas material de escrita, portanto. — Carolina acenou afirmativamente. — Alguma dúvida?

— Não, tudo certo. — entregou-lhe o formulário, devidamente preenchido, e esperou que ele o analisasse. Parecia ansiosa, mas Miguel preferiu ignorar e manter a postura. Talvez fosse ele a tirar conclusões erradas daquilo que observava. Tratadas todas as burocracias, Carolina despediu-se e deixou o edifício mas ficou presa no pensamento de Miguel durante toda a semana, sem que este conseguisse entender o motivo para que tal acontecesse.


Carolina tinha 17 anos na altura e estava a começar uma licenciatura em Ciências da Comunicação. Miguel tinha 26 e entregara a carteira de jornalista há pouco tempo para se dedicar a outros projectos que lhe diziam mais e tentar ser guionista e comediante. Não estava a correr-lhe mal. Como tinha plena noção de que a idade de Carolina lhe podia trazer complicações, passou várias semanas a tentar lutar conta o que sentia. Depois percebeu que não dava para fingir e decidiu ir com calma, sem nada sério até que ela completasse 18 anos. A calma acabou por não lhe servir de muito.

Perdeu o trabalho, acabou em prisão preventiva, mas a mãe de Carolina desistiu da acusação de assédio a menores e Miguel acabou ilibado de todas as acusações. Seguiram-se seis meses em Londres, onde Carolina fez um intercâmbio, e quase aconteceu um casamento. Quase. Houve um noivado, depois deixou de haver. Miguel precisou de cinco anos para recuperar a confiança e admiração do público que o acompanhava. Carolina experimentou televisão, rádio, fotografia e acabou a escrever numa revista de moda. Em todas ouviu comentários negativos sobre a relação com Miguel. Tornou-se uma micro-influencer nas redes sociais. Deixou o jornalismo e regressou ao entretenimento na rádio. E ao longo dos últimos seis anos, Carolina de Noronha e Miguel Rodrigues passaram de namorados para noivos, de noivos para nada, de nada para qualquer coisa, de vez em quando, quando se cruzavam e a distância se dissipava.

Era o caso desta noite.

Luís, o melhor amigo de Miguel, casara. O tempo que Miguel passara preso tornara Luís e Carolina amigos e, posteriormente, Carolina apresentou Luís a Madalena. O resto da história levara a que estivessem ali naquela noite de Fevereiro, no copo-de-água do casamento de Luís com Madalena.

Miguel senta-se novamente ao lado de Carolina.

— Acho que não vomitava para aí desde o final do curso… — murmura.

— Já te sentes melhor? — pergunta Carolina. Miguel acena afirmativamente. — Ainda bem. Acho que vou andando, então.

Miguel pousa a mão na perna dela.

— Não vás. — pede. — Fala-me das saudades.

— Não devia ter dito aquilo… — diz Carolina, sem confiança.

— Porque não é verdade ou porque não querias que eu soubesse?

Carolina não responde.

Aquele silêncio lembra Miguel do dia em que Carolina tirou o anel de noivado e lho estendeu. Estava frio, era Outubro. O anel pertencia-lhe há pouco mais de três anos. Não havia pressa para casar, apenas um compromisso de que iria acontecer. Naquele dia Carolina esperava por Miguel quando ele chegou a casa. Quando ele lhe perguntou como tinha sido o dia ela limitou-se a ficar em silêncio.


— Miguel, quero que saibas que o que eu sinto por ti não mudou, mas não posso fazer isto. — disse, estendendo-lhe o anel.

Partilharam muitas lágrimas naquela tarde. No final, Miguel compreendia os motivos de Carolina. Portugal inteiro comentara a relação deles. Não tinham feito algo errado, mas um pouco por todo o lado, de rubricas criminais a programas de comentário social, havia alguém que tinha uma opinião sobre eles. Isso dificultava o trabalho de Miguel. Luís e alguns colegas tinham-se mantido a seu lado, mas Miguel sabia que sair da sala dos guionistas sem nome para a carreira que tinha antes iria levar muito tempo… se é que algum dia aconteceria.

Para Carolina a situação era pior. É sempre pior para as mulheres. Miguel podia ser nojento por se ter metido com uma miúda de 17 anos, mas Carolina era a miúda de 17 anos que engatara um homem mais velho só para se aproveitar dele. Os comentários na faculdade não paravam e até em estágios acabava por ouvir coisas como «podes ter ido para a cama com o Miguel Rodrigues, mas aqui ninguém sobe deitado» ou «dizia-te que aqui é tudo malta demasiado velha para ti, mas toda a gente sabe que isso não te importa».

E quando tudo parecia acalmar, Luísa, a mãe de Carolina, reaparecera com explicações e informações que abalavam novamente a vida deles. Explicações sobre como António, o pai de Carolina, sempre soubera que Luísa estava no México, com outro homem. Sobre como António lhe pagara para ficar longe e depois se arrependera e voara para lá para lhe pedir que voltasse e fosse a mãe que devia ser. Informações sobre como Francisco, o irmão de Miguel, tinha sido a chave de todo o caso, como tinha contado a Luísa da relação e testemunhado na polícia, mas depois perdera a coragem em tribunal e decidira que o caso tinha ido demasiado longe. Luísa queria desfazer o mal e colocar Miguel de novo no trabalho de onde o tinha tirado, mas a ajuda vinha tarde.

Claro que Miguel compreendia a decisão de Carolina. Estarem juntos tinha virado tudo do avesso. Miguel não a podia culpar por querer uns momentos de paz.

— Fica com o anel. — pediu-lhe. — É teu, só é suposto ser teu.

E ela assim fez. Desde aí, passou a andar com o anel ao pescoço, como pendente. É ao pescoço que está hoje, tal como todos os dias.

— Carol, o que é que estamos a fazer? — pergunta Miguel. — Andas há cinco anos com esse anel ao pescoço. Não era suposto ser assim.

— Disseste que era meu. — contrapôs Carolina.

— E é, mas devia estar no teu dedo. Devíamos partilhar uma vida, não uma cama quando nos apetece sexo.

— Tens de ser justo, Miguel. — diz Carolina. — Nem sempre é na cama.

— Porra, Carolina! Eu sei que não estou lá muito sóbrio, mas isto é sério. Vais usar o anel no dedo ou mais vale aceitar a proposta de trabalho?

— Qual proposta de trabalho? E o que é que isso tem a ver com o anel? — pergunta Carolina, confusa.

— Recebi uma proposta para trabalhar como guionista num talk show. É um programa pequeno, mas bom… nos Estados Unidos.

— Oh…

— Gostaram de mim no curso de escrita para humor e convidaram-me. Teria de ir em Maio. — continua Miguel.

Carolina assente e remete-se ao silêncio durante longos minutos.

— Tens de aceitar. — diz, por fim. — Miguel, quantas vezes me disseste que adoravas trabalhar num talk show americano? Quantas vezes disseste que só querias a oportunidade e que depois a agarravas?

— Portanto devo escolher o trabalho e aceitar que esse anel nunca será usado como devia ser.

— Lembras-te daquele livro que escreveste? Como é que se chamava? Teremos…

— Sempre Londres. — completa Miguel.

— Sim, esse mesmo. — confirma Carolina. — Teremos Sempre Londres. — Miguel repara que ela tenta lutar contra algumas lágrimas. — Primeiro escreveste e não estava bom o suficiente. Depois, em Londres, mudaste-o todo e tornou-se uma espécie de mistura entre livro com texto para um espectáculo de humor. Ninguém o quis publicar em Portugal. Mas eu soube que era o início e tinha razão. Foi esse texto que te permitiu aceder ao curso de escrita em Nova Iorque, foi esse texto que te trouxe até aqui. A resposta é óbvia, não? Tens de aceitar.

— E nós? — pergunta Miguel.

— Nós… — Carolina retira o colar do pescoço e abre-o, deixando o anel cair na mão. — Durante muito tempo achei que a culpa era minha, Miguel. Eu virei a tua vida ao contrário, eu tirei-te a paz e a segurança. Por minha causa perdeste tudo. Durante todo este tempo achei que o melhor era não estarmos juntos porque eu ia estragar-te a vida outra vez e nunca me perdoaria se o fizesse.

— Não me estragaste a vida. — assegura Miguel.

— Eu sei. Só que quando percebi isso achei que não ia conseguir sair deste acordo que fizemos e depois foste para Nova Iorque e eu não podia ser o motivo para te deixares ficar, para perderes mais uma oportunidade. Por isso… — Carolina mostra o anel a Miguel. — Eu não tiro o anel porque se o fizer sinto que te perco de vez e não o tenho no dedo porque se o fizer sinto que tem de acontecer um casamento dentro de um prazo qualquer e eu não quero casar-me contigo porque temos um prazo ou porque o anel não pode ficar eternamente no meu pescoço. Eu quero casar-me contigo porque te amo e tu me amas e porque vamos continuar a partilhar camas quando nos apetecer sexo. E talvez quando não nos apetecer sexo.

Miguel aproxima-se.

— Não me vais beijar agora porque o teu hálito está terrível.

Miguel ri.

Ok. Então espera aqui.

Miguel levanta-se e dirige-se para dentro da tenda onde o copo-de-água de Luís ainda acontece. Regressa minutos depois.

— Pronto, estou com várias pastilhas de mentol na boca. — diz. Carolina solta uma gargalhada. — Levanta-te, por favor.

No interior da tenda, a música muda e o volume aumenta. Carolina reconhece a música dos Ornatos Violeta.

— Pedi ao rapaz que está a passar música para passar esta. É a tua preferida, não é?

Carolina assente.

— Não tenho o London Eye, nem me sinto capaz de um discurso magnífico depois de tudo o que disseste, portanto quero só que dances comigo. Pode ser? — pergunta, esticando-lhe a mão. Carolina aceita.

Enquanto dançam ao som de Devagar, Miguel sussura a Carolina o quanto teve saudades dela. Carolina afasta-se e estica-lhe novamente o anel.

— Não te vou pedir em casamento hoje. O dia de hoje é do Luís e eu sou egoísta o suficiente para querer um dia que seja só nosso. Além disso, tenho uma pergunta mais importante para fazer.

— Qual?

— Não tens de ir quando eu for, mas vais para os Estados Unidos comigo?

Carolina olha para o anel, ainda na mão.

— Vou. — diz, enquanto coloca o anel no dedo onde outrora esteve. — Mas este anel fica aqui.

— Eu achava que nós teríamos sempre Londres, Carol. Mas agora acho que não. Acho que teremos sempre Londres, Lisboa, Nova Iorque, o mundo, qualquer coisa.

Carolina beija-o.

— Miguel, nós não precisamos de Londres, Lisboa, Nova Iorque ou qualquer uma cidade do mundo. Só precisamos disto que temos. Tudo o resto é paisagem. E tu…  tu és grande e agora vais ser grande para o mundo.

Todos os contos do projecto Conta-me Histórias seguem o Antigo Acordo Ortográfico. Descobre mais sobre o projecto aqui.

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