Diário de Sofia Livros

Ao Sol

Não sou uma pessoa de grandes rituais. Coloco o tipo de letra, o tamanho e o espaçamento de linhas quando vou começar a escrever algo no processador de texto do computador. Habituei-me a fazer uma trança e a colocar hidratante labial antes de dormir. Mas para ler? Só preciso do livro.

Vejo cada vez mais pessoas afirmar que precisam de mil e uma coisas quando vão ler, mas eu só preciso do livro. Para quê uma bebida? Para quê a música ou o silêncio? Para mim só faz sentido ter o livro. Para os outros não sei.

No entanto tenho percebido que gosto mais de ler ao sol. Não importa se tenho música ou se estou em silêncio. Gosto de ler ao sol. Não preciso do sol para ler, caso contrário estava tramada, mas gosto de ler ao sol. É por isso que agora, com tempos soalheiros, quando não há demasiado vento, me apanham algumas vezes sentada na rua a ler.

Em Portugal quando vem o sol, as pessoas do litoral vão para a praia. Não importa se a água está gelada e ainda não é tempo de praia. No interior é diferente. Em Trancoso juntam-se às Portas d’el-rei, quase como se estivessem a tentar segurar as muralhas. No resto do interior deve ser semelhante e vão pôr-se a segurar o equivalente das Portas d’el-rei. Eu vou pôr-me no alpendre, a ler. Não levo com areia, não seguro muralhas centenárias, mas tenho livros. Acho que estou tão ou mais bem servida.

No entanto, às vezes ponho-me a pensar nesta relação que temos com o sol. Será que nos outros países também é assim? Um bocadinho de sol e já só pensam em esplanadas e praia? Ou será que é uma cena portuguesa? Seja como for, muitas vezes parecemos girassóis, preparados a fazer a nossa vida em função do sol. E o curioso é que escrevi isto ao sol, entre páginas do livro que estava a ler. Soube bem assim.

7 Comentários

  • Reply
    Inês Mota
    23/05/2020 at 10:48

    Sem dúvida que é um comportamento muito comum noutros países. Somos uns privilegiados por ter sol e calor durante tantos dias e, na verdade, até acho que não aproveitamos tanto quanto devíamos. Tens países onde os parques enchem de pessoas e há atividades que, por cá, não são tão comuns (é muito habitual os piqueniques, ler nos jardins, grupos juntos e sentados à relva, sestas com toalhas…!). E mesmo os próprios horários laborais são pensados para que estas pessoas possam aproveitar o (pouco) sol que têm. É super interessante observar isso lá fora porque é uma das coisas que mais sinto diferença: mesmo achando que nós aproveitamos os dias soalheiros, eles DEVORAM os seus espaços exteriores 🙂

    • Reply
      Sofia Costa Lima
      23/05/2020 at 11:34

      Tinha esperança de que alguém viesse dar a perspectiva estrangeira e ainda bem que o fizeste! O Miguel Esteves Cardoso por acaso tem uma crónica em que diz que os ingleses, por terem menos sol, aproveitam muito mais cada raio de sol.

      • Reply
        Matilde Ferreira
        24/05/2020 at 07:21

        Sim, o MEC tem toda a razao, os ingleses mal aparece um raio de sol e vao logo para os parques 🙂

  • Reply
    Jota
    23/05/2020 at 17:57

    Eu para ler tenho de estar em absoluto silêncio (mesmo!!!). Talvez por isso não leia tanto quanto gostaria, porque me custa imenso estar concentrado só na leitura. É todo um processo.

    • Reply
      Sofia Costa Lima
      24/05/2020 at 12:00

      Tens de arranjar daqueles auscultadores que isolam o ruído!

  • Reply
    Andreia Morais
    23/05/2020 at 19:22

    Somos uns privilegiados e, muitas vezes, nem temos essa noção. E contra mim falo, porque nem sempre aproveito tanto o sol como deveria/gostaria.
    Nas últimas semanas, tenho aproveitado as minhas manhãs para ir ler ao sol. Para além de ficar com outra disposição para abraçar o resto do dia, também acabo por ler muito mais. E isso só pode ser maravilhoso *-*
    Este texto encheu-me o coração

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    Matilde Ferreira
    24/05/2020 at 07:22

    Excelente texto 🙂 Tambem so preciso mesmo do livro para ler 🙂

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