Trabalho

Produtividade, Horas Extra e Procrastinação

horas extra

Nas últimas semanas li muitas opiniões sobre produtividade e sobre trabalhar horas extra. É verdade que nem sempre trabalhar horas extra significa trabalhar muito, mas não deixa de ser verdade que muitas vezes as horas extra significam trabalho a mais. Temos de reconhecer ambas as partes.

Este tema fez-me pensar mais porque consegui, no mesmo local de trabalho, ter as duas experiências e acho que faz sentido falar de ambas para poder falar mais sobre produtividade e a sua arqui-inimiga chamada procrastinação.

Quando trabalhar horas extra significa de facto ter trabalho a mais

Num dos meus piores meses tive 18 dias de trabalho e desses 18 apenas em quatro ou cinco não fiz horas extra. Nos restantes catorze consegui a proeza de trabalhar 21 horas a mais, o que dá algo à volta de uma hora e pouco a mais por dia.

Isto aconteceu porque eu tinha muito trabalho. Não era por procrastinar, por não ser organizada, por querer dar cabo de mim em pouco tempo: naquele mês a carga de trabalho subiu e, mesmo quando eu dizia não ser fácil conjugar tudo, recebia respostas de chefia que me diziam para fazer multitasking. Não sei como poderia fazê-lo naquele caso, mas lá me sujeitei às horas extra (que ali não eram pagas) para conseguir concluir o trabalho que tinha.

Nesse mês ia ter três dias de férias, que me permitiam um fim-de-semana prolongado. Na semana anterior veio uma carga de trabalho maior e precisava de a concluir antes das férias: mais horas extra. Acabei por precisar de concluir três coisas em casa e não foi a melhor decisão (férias deviam ser férias), mas neste caso as horas extra significavam mesmo trabalho extra.

Quando trabalhar horas extra significa desorganização (nossa ou dos nossos colegas)

Já te contei a história do dia em que perdi dois comboios de longo curso por causa de trabalho? Prepara-te que esta é boa! 31 de Outubro. Tenho a mala nos cacifos da Estação do Oriente desde as 7h50 da manhã porque é suposto apanhar um comboio às 18h39. Até gastei dinheiro num táxi para conseguir chegar cedo ao trabalho e fazer o meu horário completo. Problema: só cheguei à estação às 21h. O comboio seguinte já não tinha lugares. Tive de adiar a viagem para as 7h39 do dia seguinte. O que aconteceu?

Em todas as minhas experiências profissionais dependi do trabalho de outras pessoas, embora nem sempre de forma tão evidente. Neste em específico eu só podia fazer a minha parte sozinha até certo ponto. E fiz. Adiantei tudo o que podia, adiantei trabalho da semana seguinte, fiz a parte de outro colega e continuava sem receber o que faltava (que demorava mais tempo). Fui insistindo. Eram 17h15 quando recebi a maior parte do que precisava de ter para concluir o trabalho e que precisava de ficar feito naquele dia. Problema: precisava de sair dentro de 5 minutos para chegar a tempo do comboio. Não tinha quem me substituísse. Tive de ficar.

Neste dia foi mais complicado gerir porque, de facto, tinha de ir embora e queria tudo menos estar ali, mas foi uma situação que ocorreu ali com frequência quase semanal. Eu podia ter uma, duas horas sem nada que fazer porque ficava à espera do trabalho dos outros para conseguir terminar o meu. Neste caso as horas extra não eram por ter trabalho a mais: eram porque havia atrasos que me impossibilitavam de trabalhar.

Produtividade, procrastinação e organização

Sinto que procrastino muito mais em casa. Se estiver a escrever, a trabalhar para o blog ou mesmo em modo freelancer e estiver em casa sei que vou procrastinar mais. Também me acontecia na faculdade e no secundário. Já sei o que gasta a casa. No entanto sempre tive um factor positivo a meu favor: se procrastinar e precisar de ficar mais tempo a trabalhar em algo por causa disso nunca culpo o universo: assumo que a culpa foi minha e trabalho.

Ao mesmo tempo, se me comprometo com algo para determinado dia eu faço tudo para conseguir que isso aconteça nesse dia. Enquanto freelancer não foi sempre fácil cumprir isso e sentia-me frustrada nesses momentos, mas em trabalhos normais consegui sempre cumprir os prazos com que me comprometi. Mesmo com procrastinação pelo meio.

No entanto reconheço que a procrastinação (muitas vezes em versão scroll de redes sociais) acaba por ter um impacto na produtividade. É por isso que, por vezes, me sinto obrigada a ser mais e mais organizada.

Manhãs produtivas, tardes lentas

Sou mais produtiva de manhã. Já sei que as coisas urgentes ou que exigem mais de mim têm de ser feitas de manhã, caso contrário arrisco-me a passar a tarde à volta de uma só coisa. Como já sei isto, organizo tarefas de forma a que as manhãs tenham uma carga maior e as tardes sejam mais leves.

Se estiver em modo produtividade sou capaz de adiar um bocadinho a hora de almoço só para conseguir adiantar o mais possível aquela tarefa porque depois de almoço sei que a minha concentração diminui e demoro mais a fazer as coisas.

Queres saber uma curiosidade? Estou a escrever este texto a meio da tarde, mas na verdade era suposto estar a escrever outro texto. Hoje procrastinei a produzir, o que acontece por vezes. Porque nem sempre a procrastinação tem de ser uma coisa má e negativa.

Método Pomodoro: Saber parar

Acho que há, por vezes, a ideia absurda de que somos máquinas e, portanto, no momento em que começamos a trabalhar não precisamos de pausas, de descanso. Vemos pessoas dizer que quantas menos vezes parares durante o teu dia de trabalho melhor, mas eu gosto daquela ideia de trabalhar com o Método Pomodoro.

Este método defende que devemos trabalhar durante X tempo (normalmente 25 minutos) e fazer pausas de 5 minutos sempre que atingimos esse tempo, com uma pausa mais longa (10 ou 15 minutos) depois de concluir o projecto ou depois de três ou quatro blocos de 25 minutos.

Eu gosto deste método porque aquela pausa de 5 minutos é a ideal para nos afastarmos do computador (os olhos agradecem), para irmos até ao fundo do corredor (as costas e as pernas agradecem o movimento), para ir à casa-de-banho, para beber água. Como não é uma pausa muito longa recuperamos rapidamente a concentração quando voltamos, mas tivemos oportunidade de descontrair por um bocadinho.

Em conclusão...

Aquilo que quero dizer-te com este texto é que é óbvio que nem sempre as horas extra estão associadas a maior produtividade ou a mais trabalho, mas também não significa que se deva tirar todo o crédito a quem trabalha horas extra várias vezes.

Também acredito que há cada vez mais uma pressão para ser produtivo constantemente, o que não é saudável nem produtivo, para ser justa. Ninguém consegue ser produtivo todos os dias, a toda a hora, muito menos durante várias horas seguidas. O descanso é necessário e importante e não são as horas extra que nos tornam melhores ou piores trabalhadores e garanto que muitas vezes nem as horas extra nos fazem ser mais ou menos apreciados.

No fundo, aquilo que quero deixar claro é que há que perceber que sim, podes trabalhar horas extra sem ser por teres trabalho a mais, mas não significa que possas dizer que toda a gente que trabalha horas extra só o faz porque é desorganizado ou procrastinador. Nem tudo é assim tão simples no mercado de trabalho.

2 Comentários

  • Reply
    Inês Martins
    11/07/2020 at 12:07

    Apesar de ainda não trabalhar, associei muitas das coisas que escreveste a mim própria enquanto estudante. Ter estado em modo ensino à distância durante quase três meses foi um verdadeiro teste à minha capacidade de não procrastinar. Procrastino muito mais em casa, porque em cada canto há uma distração, mas assumo que isso é minha responsabilidade e tento corrigir-me ou compensar no dia seguinte, porque quando quero consigo ser mesmo focada e organizada.
    Além disso, também sou muito mais produtiva de manhã, quando estou com a cabeça bem fresca e no sítio. Depois à tarde, sobretudo agora que está calor, fico mesmo molenga e muito mais lenta. Ahahah! Não costumava usar o método pomodoro para estudar, mas agora nesta reta final do semestre em que estava mais difícil ficar concentrada por muito tempo seguido comecei a utilizar e senti que resultou mesmo! Até usei uma app chamada Forest que “planta árvores” durante o tempo em que estamos focados sem mexer no telemóvel e, se mexermos para sair da app, a árvore “murcha”. Acho o conceito muito giro.

    Desculpa o comentário gigante ahahaha mas adorei o post!
    Beijinhos,
    https://inescm2.blogspot.com/

  • Reply
    Andreia Morais
    11/07/2020 at 20:08

    Esta publicação é, também um excelente alerta para o quanto não podemos colocar tudo no mesmo saco; para o quanto precisamos de analisar cada caso sem atribuirmos logo um juízo de valor.
    Estando em casa, sei que acabo por procrastinar mais, até porque tenho outros focos de distração, mas também sei que, se tiver um prazo em mente, vai acontecer, até porque odeio atrasos [sejam de que espécie forem], sobretudo, quando implicam deixar mal alguém.
    A nossa vida tem demasiadas áreas cinzentas. Esta é mais uma e é importante percebermos isso

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