Desporto Saúde

Medalha de Ouro

03/08/2021

Este ano, pela primeira vez desde 2004, não estou a ver os Jogos Olímpicos. Sempre gostei dos Verões em que havia Jogos Olímpicos. Não ligava a tudo, mas havia qualquer coisa que me fazia gostar daquela atmosfera e ver várias modalidades que não veria em condições normais. No Verão de 2004, o meu penteado preferido era uma versão do penteado que a Yelena Isinbaeva usava na competição.

Este ano, no entanto, não estou a ver os Jogos Olímpicos. Não tenho tempo e, honestamente, não tenho vontade. Se sei alguma coisa do que lá vai acontecendo é porque recebo newsletters de jornais. No entanto há um assunto dentro do qual é impossível não estar: Simone Biles.

Para muitas pessoas, isto de agora se falar tanto de saúde mental causa incómodo. Nota-se um certo desviar do olhar e uma vontade louca de mudar de assunto. Só ouvir as duas palavras juntas já é complicado: saúde mental. Para alguns não é possível dizê-lo. É mais fácil chamar-lhe problemas emocionais. Bem, podem chamar-lhe o que quiserem.

Quando a Simone Biles disse que, por momentos, perdeu noção de onde estava e decidiu que o melhor para ela era abdicar da competição vi ali um dos momentos merecedores de medalha de ouro. O desporto é uma metáfora boa para muitas das minhas situações de vida, mas desta vez não é preciso fintar o adversário para tentar marcar golo.

Lembro-me muitas vezes de um excerto do livro do Andre Agassi em que ele diz que odeia ténis. Debati-me muito sobre isto enquanto lia. Mas que caraças? Como é que ele diz que odeia ténis? Se ele odeia o desporto que pratica por que raio continua a praticá-lo? Que raio de relação tóxica esta…

No entanto, com o tempo, compreendo cada vez melhor aquela sensação. A maior parte dos desportistas que conhecemos terá começado a praticar aquele desporto por diversão e paixão. Mas quando a diversão dá lugar à competição e a paixão dá lugar à progressão, quando deixa de ser um passatempo e passa a ser o ganha-pão… tudo muda. Não é mesma coisa quando tens os olhos do mundo em cima de ti e tens de lidar com as tuas expectativas, as expectativas do mundo e tudo o resto que se passa na tua vida. Para mim é admirável como é que conseguem sequer fazê-lo.

Por muito que a falta de compaixão perante situações de saúde mental me chateie, vou sempre querer que se fale de saúde mental. Vou sempre levantar-me e aplaudir quem se chega a frente e fala do assunto, muito mais do que aplaudiria um triplo mortal da Simone Biles. Ela é a melhor das melhores na ginástica, mas gosto ainda mais dela agora.

 

Este texto foi enviado para todos os subscritores da newsletter no domingo, dia 1 de Agosto. Para leres textos exclusivos todas as semanas, podes também subscrever aqui.

 

  • Reply
    Andreia Morais
    03/08/2021 at 19:42

    Um exemplo, sem qualquer dúvida. Porque elevou a voz para mostrar que nada é mais importante que a nossa saúde. E que se continue a falar sobre o assunto, para que mais pessoas compreendam que a nossa saúde mental não merece menos cuidados

  • Reply
    Inês Mota
    06/08/2021 at 08:26

    Não podia estar mais de acordo! Achei curiosa a analogia do Andre Agassi. É preciso saber escolher bem as paixões. São sempre extensões de nós mas nem todas serão paixões para sempre…

    • Reply
      Sofia Costa Lima
      28/08/2021 at 10:25

      Acho que às vezes é mesmo preciso saber reconhecer que nem tudo é para sempre…

share your theory

%d bloggers like this: